A gente fala muito — com razão — sobre como o empreendedorismo pode transformar vidas. E pode mesmo. Já vimos isso na prática: negócios que nascem com pouco e, com apoio, formação e estratégia, conseguem triplicar o faturamento em poucos meses. Mas vamos ser sinceros? Empreendedorismo sozinho não dá conta do recado.
Tem muita gente querendo colocar nas costas do empreendedorismo uma responsabilidade que é coletiva. Como se bastasse ensinar alguém a vender bolo no pote que, pronto, resolvemos o desemprego estrutural do Brasil. Não é bem assim.
Nas periferias, o buraco é mais embaixo. Falta saneamento, falta segurança, falta acesso a crédito, falta conexão com o mercado. E em muitos casos, falta até o básico pra garantir o almoço do dia. Diante disso, a gente precisa ser claro: o empreendedorismo é UMA das estratégias para combater o desemprego, mas não pode ser a única.
Precisamos, sim, de políticas públicas fortes. De geração de empregos de qualidade, pagamentos dignos. De programas de transferência de renda, de cestas básicas, de auxílios emergenciais. Porque enquanto a base não tiver o mínimo, não adianta falar de pitch, de canvas, de inovação. A prioridade é comer hoje.
E se tem uma coisa que a gente também precisa cobrar é investimento real. Uma pesquisa da FGV mostrou que negócios dentro da periferia recebem 37 vezes menos investimento do que os de fora dela. Trinta e sete vezes! É surreal. Pra começar a mudar esse jogo, os apoiadores — empresas, institutos, fundações — precisam colocar pelo menos 10 vezes mais grana nos negócios periféricos. Isso é o mínimo pra começarmos a corrigir essa desigualdade.
O que a gente faz aqui na Empreende Aí é potente, transformador e real. Mas mesmo com toda a dedicação, metodologia e paixão que colocamos, sabemos que sozinho o empreendedorismo não resolve. Ele é ferramenta. Ferramenta poderosa, mas que precisa de uma caixa inteira de outras políticas e apoios pra funcionar de verdade.
A quebrada é cheia de potência. Mas a potência só vira impacto quando tem estrutura, oportunidade e respeito.